O vento soou forte na imensidão do silêncio. Dentro das casas as pessoas se cobriam com lençóis, tapavam as bocas dos pequeninos e rezavam mudos, lágrimas insonoras escapando dos seus olhos.
Do lado de fora o breu predominava, sequer o som dos animais noturnos eram ouvidos e se isso não era motivo o suficiente para alarde, o fato de um vilarejo tão novo parecer uma cidade fantasma no véu da noite deveria pelo menos dar-lhe calafrios.
Mas talvez viajar aleatoriamente pelo deserto o dê coragem o suficiente para ignorar isso, ou talvez aquele homem fosse apenas louco. Quando o viajante passou os olhos pelo local, ele sequer pestenejou, mas guiou as rédeas do cavalo seguindo o caminho pela pequena vila.
Soltando um murmuro ele passou a mão calejada na barba grisalha, seus olhos pareciam brilhar no escuro com o mais límpido tom de mercúrio, embora pudesse ser apenas uma ilusão da luz, afinal os homens não possuíam olhos prateados, demônios, espíritos, bruxas, estes possuíam os olhos anormais, não os homens.
Assim ele puxou um caderninho encouraçado de uma bolsa velha feita de pele animal, virando em alguma página desconhecida o homem leu as poucas palavras de uma carta velha e esquecida pelo tempo, oque era estranho, visto que pouco tempo antes parecia nova. " Maria, número 13" era oque estava escrito no papel. Olhando para as portas no escuro, como se realmente pudesse ve-las, o homem seguiu.
Este sujeito poderia estar procurando abrigo, visitando uma amante, vendo a família, retornando à casa, mas não era, nada tão mundando poderia vir de alguém como ele, ninguém precisava saber desse fato
Do outro lado da cidade, algo andava no mesmo ritmo do viajante, parecia uma estranha sombra de olhos brancos leitosos, não se sabe se era homem, demônio, lobisomem ou bruxa, mas naquele momento duas almas andavam para a mesma casa.
Uma batida ecoou na porta, Maria recuou, não sabia se deveria abrir, não sabia se era 'ele'. Se não fosse, ela não poderia abrir a porta, qualquer um que fizesse morreria.
A sombra apressou seus passos, o homem fez o cavalo aumentar o ritmo, após longos minutos uma porta abriu, sorrisos gêmeos de polos opostos enfeitaram rostos iluminados à meia-noite.
Um grito ecoou aterrorizante, Maria caiu no chão de casa, alguém se afastou do vilarejo com um caderninho na mão, e a história apenas dizia que aquele lugar nunca mais foi aterrorizado na penumbra da noite.
Tudo oque nunca se sabe, é que uma alma dali foi arrebatada, nenhum humano morreu, mas nenhum humano lutou, os olhos claros brilharam na escuridão, também nunca se saberia oque aconteceu ao encontrarem Maria pela manhã, ou quem era o homem e quem era o demônio, mas uma alma se foi, uma alma foi pega, um caderninho ganhou uma página, do dono ou do inimigo? Nunca se sabe
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